Entrevista com Luiz Almeida (Tio Luiz)

 

FFB → Olá Luiz.

Obrigado por nos ceder um pouco do seu tempo para responder a algumas perguntas.

Como começou na pesca com mosca e o que ela representa hoje em sua vida?

 

Tio Luiz → Eu pesco desde menino e, morando no Rio de Janeiro, sempre tive a praia como quintal.

Foi lá onde comecei pescando papa-terras e galhudos, com meu pai. Fiquei anos praticando a pesca de competição – hoje não me orgulho disso, mas o aprendizado foi fantástico – e, paralelamente, pescava robalos com “peninhas”, o que faço até hoje.

Já adulto, fiz pós-graduação nos EUA. O campus de Davis, da Universidade da Califórnia, é cortado pelo Putah Creek, que nesse segmento, na planície, abriga black basses small mouth e carpas. No segmento superior, é povoado por trutas. O prédio em que estudei fica numa encosta, a 150 metros do rio e, da janela, vi pela primeira vez o bailado da pesca com mosca. Fiquei encantado e, no dia seguinte, comprei meu primeiro equipamento: vara Fenwick #6 de fibra de vidro e uma carretilha Pflueger, ambas usadas. Era o final do verão e não preciso dizer que as minhas notas estavam péssimas. Em compensação, progredia bastante na pesca! Chegou o inverno, passei a me dedicar ao curso, deixando a pesca de lado desde então.

Retornando ao Brasil, voltei a pescar papa-terras na praia e robalos no mangue e a pesca com mosca ficou adormecida. Certo dia vejo em uma banca do Centro do Rio de Janeiro, um exemplar de Field & Stream, cuja capa tinha um pescador com mosca, posando com uma linda truta. Aquilo mexeu comigo e pensei: será que alguém pratica essa modalidade no Brasil? Após muito procurar, fui informado que um senhor, chamado Paulo César – que por sorte morava no RJ – era o brasileiro que mais conhecia do assunto. Entrei em contato com ele. Era início da década de 90 e o então desconhecido Paulo César Domingues foi meu mestre, ensinando-me sobre equipamentos, nós, tipos de mosca e, principalmente, a lançar com rigor técnico (só que o aluno, viciado em outras modalidades, nunca aprendeu direito. Até hoje, lanço mal!).

Paralelamente, por insistência dos amigos, voltei à pesca de competição, me afastando do fly e só esporadicamente pescava com mosca. A partir de 1998, passei a pescar com mosca com mais regularidade e, dessa vez, em pouco tempo se tornou uma paixão.

Atualmente a pesca com mosca é parte indissociável de minha vida, na verdade, de nossa vida, pois as melhores viagens têm sido feitas na companhia de minha mulher, Jack. Tendo sido criada no interior, felizmente ela ama a natureza intocada e não tem medo de nada. Assim, prefere passar suas férias e dias livres fazendo caminhadas, fotografando, pescando e me acompanhando nas viagens de “turismo ao fim do mundo”, do que em qualquer grande cidade. A única coisa de que ela não abre mão é viajar à Disney. Felizmente, também sou apaixonado pela terra do Mickey e, mesmo lá, pescamos!

 

 

FFB → Sabemos que você é uma pessoa que viajou muito e conhece centenas de locais propícios para a pesca com mosca. Poderia nos dizer alguns destes locais e suas particularidades ?

 

Tio Luiz → Que eu viajei muito é fato. Conheci 42 países e mais de 500 cidades. Mas grande parte dessas viagens foi realizada a serviço, participando de delegações oficiais do Brasil e, assim, ficava sem possibilidade de “dar uma fugida” para pescar. Ou seja, essas centenas de lugares para pescar com mosca, são mais conhecidas na teoria.

Mas também temos viajado um pouco a turismo e para pescar. Assim, vou comentar sobre um local que amamos – a princípio, inusitado para a pesca – de fácil acesso, que pode ser aproveitado quando se viaja em férias com a família. Trata-se do Seven Seas Lagoon, que é o lago do parque Magic Kingdon, na Disney World, em Orlando, FL. Ele se estende até Downtown Disney, abrigando em suas margens lindos resorts, como o Polynesian, o Wilderness Lodge, o Grand Floridian, o Contemporary, o Caribeean Beach, dentre outros. Aliás, caso não se queira pagar para ficar em um desses hotéis (são realmente caros) uma opção interessante é acampar na Disney. Isso mesmo! Poucos brasileiros – mesmo aqueles habituados a viajar para os parques de Orlando – sabem dessa possibilidade, pois a mesma só é divulgada no mercado norte-americano. Mas qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade, pode alugar um trailer – lá é baratíssimo – ou uma barraca de camping e acampar no meio de uma linda floresta, junto ao lago, com toda a infra de banheiros, churrasqueiras, fontes de luz, mesas para pic-nic, restaurantes e conexões de TV e Internet, tudo perfeito, tudo bacana! Eis o link para quem se interessar:

http://disneyworld.disney.go.com/resorts/campsites-at-fort-wilderness-resort/rates-rooms

Mas como para pescar não há necessidade de se estar hospedado no complexo Disney, a opção mais econômica é eleger um dos conhecidos hotéis pertencentes às grandes redes, baratos e confortáveis.

O lago apresenta águas muito limpas e é coalhado de Black Basses Large Mouth, que podem ser pescados mediante contratação do serviço de guias da própria Disney, para excursões de pesca de duas ou quatro horas. São utilizados Bass Trackers de primeira linha e são oferecidos equipamentos de spinning necessários à pesca com minhocas artificiais ou com iscas vivas (um peixinho, feito um lambari, chamado de shiner). Mas se você estiver com seu equipamento de mosca, poderá usar desde que os anzóis sejam totalmente sem farpas.

Não sei se é pelo fato de sermos apaixonados pela Disney (vamos lá todos os anos), mas considero uma tremenda curtição pescar basses grandes tendo como moldura o Castelo da Cinderela. O preço da brincadeira é salgado, mas não chega a assustar. E ainda existe a possibilidade de se pescar com vara de mão em diversos pontos da área de Fort Wilderness Resort, que é o nosso hotel predileto. Todas as manhãs um ou dois personagens aparecem para pescar. Vocês não podem imaginar o que é o Mickey e o Pateta chegarem, juntos, para pescar no cais. Aliás, o Pateta é impagável, com equipamento de mosca, se enrolando na linha, espetando o anzol na orelha ou pescando uma bota velha. As crianças ficam em estado de graça e nós, adultos (pelo menos eu e Jack nos incluímos nesse grupo) nos sentimos vivendo um sonho, pois é inevitável a associação com as histórias em quadrinhos e desenhos animados da infância, onde sempre apareciam muitas pescarias. Para quem quiser experimentar:

http://espnwwos.disney.go.com/events/more/fishing-excursions

E, caso se queira pescar com seriedade, enquanto a família se esbalda nos parques, a Flórida Central tem dezenas de lagos com Basses e serviços de guias muito bons, inclusive vários especializados em pesca com mosca. E isso a poucos minutos dos parques. Ou seja, se pode pescar toda a manhã e encontrar o grupo ou família na hora do almoço. Caso se queira ir um pouco mais longe, com uma viagem que dura cerca de uma hora se chega a Daytona. Pouco antes se encontram a Mosquito Lagoon e o Indian River, com excepcionais oportunidades para a prática da pesca com mosca. Ou seja, podemos pescar de verdade por um par de dias, sem comprometer as férias familiares. Eis alguns links que posso recomendar: http://www.redfishonfly.com e http://www.irl-fishing.com 

 

 

FFB → Nestas “indas e vindas”, quais foram os locais que mais lhe agradaram no quesito organização da pesca esportiva (Guias, pousadas, estrutura de pesca em geral)? 

 

Tio Luiz → Sem dúvida alguma, os Estados Unidos. Tudo funciona, todo mundo é profissional e procura fazer o seu melhor, pois a concorrência (em todos os setores) é feroz e o consumidor americano é muito exigente. E, o mais importante, é a clareza das coisas! Você sabe exatamente o que esperar do hotel, do barco, do guia e da pesca e quanto irá pagar por isso. Simples assim, sem acertos ou itens não previstos. Quanto aos preços dos hotéis, variam muito dependendo do estilo/estrelas, da região e época do ano. Mas sempre é possível encontrar alternativas econômicas, mesmo em locais sabidamente caros. E a estrutura de pesca, inclusive a pública, é a melhor do mundo: paralelamente às milhares de marinas e clubes náuticos privados espalhados pelo país, existem muitas marinas públicas, tanto em rios/lagos, quanto no mar. Ou seja, você chega rebocando seu barco e encontra uma rampa decente para colocá-lo na água. A seguir, estaciona em local próprio, onde também se encontram banheiros limpos, churrasqueiras e pias com bancadas, para lavar e limpar os peixes. Quanto aos guias, nem sempre são simpáticos, mas extremamente profissionais. Você é pego na hora combinada, os barcos são limpos e apropriados, funcionam bem e o capitão irá se desdobrar para encontrar o peixe e também irá fazer o máximo para que você pesque. Mas não espere que ele se torne logo seu amigo. Os preços são salgados, variando entre US$400 e US$700,00 a saída de pesca para duas pessoas.

 

 

FFB → E nossa vizinha Patagônia ? O que tem a nos dizer sobre ela?

 

Tio Luiz → Nós adoramos a Patagônia, tanto a Argentina, quanto a Chilena. Digo nós, pois sempre viajamos juntos (Jack e eu) para lá; às vezes com Clarissa e Rodrigo; às vezes com outros casais ou só nós dois. Esse ano será a primeira vez que vou com um amigo. A Argentina é mais verde, mais arborizada e florida, com as pequenas cidades oferecendo um clima muito aconchegante; já o lado chileno apresenta natureza mais agressiva, muitas rochas, rios com margens em pedras e, quando já mais próximo ao mar, se percebe uma mistura de cheiros no ar, como em Puerto Mont, porta de entrada da patagônia chilena. Honestamente, não conseguiria dizer de qual Patagônia gostamos mais. Talvez, pelas condições atuais (quantidade e tamanho das trutas) nossa preferência seja em pescar no Chile, que também tem pequenas cidades com roseiras por todos os canteiros públicos, seu vinho excepcional e muito salmão para nos contentar o paladar. Mas para viagens de turismo/pesca, preferimos a Argentina, pelas paisagens mais amenas, pela qualidade da hospedagem e da gastronomia superior e que também nos brinda com ótimos vinhos. As trutas, em média, são menores, mas a diversão tem a mesma intensidade nos dois países. Já quanto aos guias, a coisa complica um pouco: tanto o Chile, quanto a Argentina têm excelentes guias, com quem, amiúde, estabelecemos amizade e a quem contratamos os serviços a cada nova temporada. No entanto, em ambos os países, mas principalmente no Chile, existem guias tão ruins e com os mesmos vícios de nossos piloteiros: querem pescar, não tem a menor condição técnica para exercer a função, são rudes e não demonstram comprometimento com o sucesso da jornada. Já contratamos guias assim no Chile, sendo uma experiência muito desagradável. O que vem ocorrendo é que norte-americanos, percebendo essa lacuna, tem migrado dos EUA para o Chile, montando lodges e serviços de guia com padrão Tio Sam de qualidade e atendendo, com sucesso, seus compatriotas. Na Argentina a situação já é bem melhor, pois para ser guia de pesca com mosca há que ser feito um curso de qualificação (que engloba conhecimentos de idiomas, sobrevivência, natação em água gelada, remo, pesca, primeiros-socorros, etc...) e o exame, promovido anualmente pelas associações regionais de guias, é muito rigoroso. Assim, ao se contratar, na Argentina, um guia credenciado pela associação local, tem-se a garantia de que é um profissional preparado.

E, quanto à pesca, é soberba, tanto no Chile, quanto na Argentina. Até porque, se a pesca com mosca tem um corpo, seu nome é truta. E se a pesca com mosca tem alma, seu nome é Patagônia.

 

FFB → Teria algo a dizer aos que desejam ingressar na pesca com mosca?

 

Tio Luiz → Sim, o que digo sempre: pescar com mosca, DE VERDADE, não é arte fácil. Quem afirma ser – como eu já tenho escutado e lido – não sabe o que está falando. São necessários senso de observação, disciplina, determinação, paciência, habilidade manual, instinto e humildade. E aliar a prática constante ao aprendizado teórico obtido nos livros, vídeos e fóruns de pesca é a melhor forma de se desenvolver. Caso possível, fazer um curso ajuda muito, mas não é fundamental. E finalmente, antes de ingressar no universo paralelo da pesca com mosca, os aspirantes devem se perguntar (e responder a si mesmos com toda a honestidade): Afinal, por que eu quero pescar com mosca?

 

FFB → Sabemos que você também tem uma certa experiência com gastronomia e vinhos. Há algo interessante que gostaria de dizer sobre esse tema aos nossos amigos do Fly Fishing Brasil? 

   

Tio Luiz → Eu costumo brincar, dizendo que uma boa mesa, com pratos especiais, harmonizada com os vinhos certos para a ocasião, é um dos grandes prazeres que o homem pode ter. Que, inclusive, esse seria o segundo maior prazer do homem, pois o primeiro grande prazer, todos concordam, é PESCAR, claro! Ou vocês pensavam que seria o que?

Brincadeiras à parte, o fato é que gosto muito de cozinhar. Sou de origem Portuguesa, de família de camponeses e agricultores e herdei o gosto pela boa mesa, o dom de cozinhar e receitas ancestrais. Com o tempo, fui adaptando meus conhecimentos à cozinha contemporânea e hoje consigo me defender bem; nunca fiz qualquer curso, mas sempre estudei e experimentei bastante. E faço não só pratos salgados, mas também me arrisco na doçaria; afinal, minha mãe foi doceira e confeiteira profissional. Agora, tudo isso é por prazer, nunca pensei em me profissionalizar. Com os vinhos é parecido. Toda a minha família sempre “colheu o vinho”, expressão usada em Portugal, por ocasião das vindimas. Vêm fazendo isso há mais de 150 anos, mas produzindo muito pouco. Os vinhos de menor qualidade são destinados às cooperativas, que o engarrafam e vendem em marcas locais e baratas. Já os de boa qualidade, nem são vendidos. Ficam para o consumo da família, durante todo o ano, para envelhecimento ou usados para escambo, trocados por bacalhau e polvo, com as mesmas famílias que dominam secularmente o comércio de pescados. E, para mim, participar ainda criança das vindimas, das festas e do pisoteio da uva (embora não mais permitido, até hoje a família de minha mãe mantém um lagar tradicional, que é o tanque onde a uva é pisada, um ritual quase tribal) são memórias muito vivas e tão doces e inebriantes quanto a Jeropiga (bebida preparada a partir do mosto do vinho antes do processo de fermentação, que é feito por 1/3 de aguardente de uva que lhe é adicionado), que acompanha as primeiras castanhas assadas na lareira rústica do início dos invernos, nas festas e magustos de São Martinho. Hoje a produção caseira de Jeropiga também é proibida, mas as famílias mais tradicionais ainda a fazem e não há casa em Portugal que não tenha uma garrafa escondida na despensa. Bem, com todo esse vinho “correndo na alma” também resolvi aprender um pouco mais profundamente sobre o tema, nesse caso tendo participado de alguns cursos; mas também por puro prazer.

Por sorte – e nisso também combinamos – Jack adora cozinhar (e faz comida brasileira com maestria).  Assim, temos sempre muita satisfação em receber os amigos em nossa casa, para juntos desfrutarmos da boa mesa e nos confraternizarmos aquecidos pelo vinho.

 

FFB → Nos fale um pouco sobre seu novo projeto (Aquele dos vistos … se possível ajeite essa pergunta como melhor achar) (PS: Estou precisando do curso “A arte de escrever” … rs)

Tio Luiz → (Rafael, prefiro não falar do projeto, pois foi adiado...Por enquanto não tenho tempo para tocá-lo). Da mesma forma, não vou falar sobre “a arte de escrever” pois a entrevista já está muito longa.

 

 

FFB → Mais uma vez agradecemos a colaboração e disposição em ajudar nossos amigos do fórum. Gostaría de deixar um recado para nós?

Tio Luiz → Apenas dizer que me sinto muito privilegiado e agradecido por participar do FFBr, onde tenho aprendido mais do que ensinado e, principalmente, tenho conquistado novos amigos.